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07
Abr20

Crónicas em quarentena

por Pedro Gomes

Era o sétimo dia de quarentena de quatorze dias. Iniciara ter tédio. Antes do acontecimento acontecido, na minha ideia eu iria passar os dias activos entre , leituras, escritas e sossego. O sossego venceu as duas outras possibilidades. Não liguei tanto, continuei vivendo misericordiosamente como um abade sem convento.
Tinha sim, amizade com alguns livros, embora no plano idealizado a leitura seria de bem mais páginas como de bem mais escritos. Ia se lendo. Planeava duas horas e lia por meia. Já era alguma coisa para quem nunca lia e sonhava com ler. Gostava muito de música. Ouvir não exige muito do ser da gente. Basta estar ali com os ouvidos abertos, seja de pé, sentado, ou ampliando caminho pelos pequenos espaços da casa. As janelas eram o miradouro turístico. Ia se de uma à outra a buscar novas perspectivas. Fosse por onde o sol andasse, era uma nova forma de ver a luz batendo as telhas.
Li poemas, decorava uns poucos e pensava em escrever. Sai os relatos da reclusão, como quem tem um diário em um cativeiro. Ouvia Legião Urbana dando às memórias juvenis o sentimento natural inspirado das letras. Quando comecei "gostar" do sentimento, quando iniciara a nutrir sensibilidade por familiares, amigos e meninas, a voz de Renato Russo era o tom do profeta. Entendendo ou não, eu embarcava no oceano de suas emoções melódicas e deixava me levar nesse outro universo sensível de ser vivo.
De uma das janelas, via no pátio de baixo o gato grande do vizinho. Um felino magnífico. Pêlos exuberantes em volta dum pescoço semi longo, para um gato até bem longo, em pêlos de barriga branca e flancos castanho negro acinzentado. Fiquei olhando ele se lambendo. Segundos depois olhou me com desprezo. O meu ar de surpresa para ele era banal. Continuei observando, admirando um ser vivo diferente a esse meu actual estado de viver. Lambendo se descontraidamente, sem ligar a qualquer julgamento de animal ou gente.
O sol caiu em sombra. Cansei de ver. Virei de costas à  janela e preparei um chá de vinho, e quando retornei o gato dormia continuando sem ligar a mim. Sem nem saber dar qualquer importância ao me existir. Fechei a janela e peguei num livro de receitas culinárias para o jantar. Já havia feito todas as receitas que sabia de atum.

22/03/2020

Pedro Gomes



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