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04
Mai20

Crónica em quarentena VI

por Pedro Gomes

Desde que o vizinho enviou uma mensagem sob as onomatopeias sexuais ouvidas de sua casa, e segundo o mesmo, até da rua, Lisa já não consegue ter orgasmos. É como se no momento em que ela atinge o pico da montanha, alguém lhe puxasse à superfície da realidade, e tornava se mais difícil alcançar o ponto alto onde estava no cume clímax.
O mais estranho na mensagem do vizinho, é ele ter apenas dito, dá para ouvir e que se ouve, mas sem nenhuma reclamação. Não disse ele, < Tenho sido incomodado com a vossa orquestra de prazer. > Disse apenas, Oiço vos. E mas nada. Será que o que realmente o incomoda está além das nossas capacidades de compreensão? Estaremos inibindo a vida sexual dele com a esposa, recente mãe, de se realizar na plenitude? Já que involuntariamente nos ouve, ele esperava ser convidado?
Temos tentando que nosso ritmo seja mais acústico, com música de fundo abafando o som do gemegeme e actuando em palcos mais silêncios que a mesa de jantar. Afinal não sou o único observador do prédio, embora nunca o tenha ouvido, apenas sinto o cheiro da merda de seu cachorro e um ou outro miar felino, de gato mesmo. Em tempos de excesso de vida privada, somos o público dos outros em nossa própria casa. Sempre fomos, mas agora já não há o som dos carros, as vozes, gritos e passos tomando as ruas abafando o coro de nosso regato amoroso.
Esperamos que ao menos o tenhamos inspirado à maestrar o seu próprio coro, para assim, a igualdade libertária fraternal reinar entre os nossos espectadores sonoros silenciosos de uis e ais.

27
Abr20

Crónicas em quarentena V

por Pedro Gomes

Este é o pior diário alguma vez criado. A cronologia perde se em hiatos de tempo descompassados. Há dias que escrevo, noutros penso em escrever e alguns que não sei o que escrever. Ficar fazendo relatório de infectados e mortes, é estar a cada minuto desactualizado. Cresce e mais cresce em Portugal, felizmente não com a expressão de outros países como Espanha, Itália e Inglaterra. Há para ver um pouco de baile político; hoje dizem não, amanhã dizem sim. É necessário saber dançar com a população. É tudo tão novo para esta actual situação. Certamente há quem viveu algo parecido entre guerras e ditaduras, políticas de endurecimento do ir e vir humano. Os jornais se dividem entre falar do problema da economia e o problema da pandemia. Dependendo da fonte, ficamos confusões em perceber o que está a frente da base hierárquica de valores dos controladores da civilização, vida ou dinheiro?
Não é só o silêncio das ruas que trazem desilusão. Mas o futuro, esse tão próximo futuro, posto em causa em qual via seguirá, quais serão, depois e durante este processo, a nossa base de valores civilizacionais? Temos de repensar como devemos viver a vida? Como podemos fazer um mundo melhor ( mesmo a nível pessoal, como?)?
Só nos resta refletir. De verdade, vamos pôr os neurónios, cada qual em sua casa e em sua caixinha cerebral, à serviço do melhor caminho a seguir para um futuro melhor, perceber o que andamos fazendo e ter forças para decidir, quando as vias ideológicas e políticas, voltarem a se dividir. A pandemia irá passar e algo dela nos irá transformar.
7/4/20

22
Abr20

Crónicas em quarentena IV

por Pedro Gomes

Esperando sentado no banco do carro defronte ao Tejo, relembro os tempos de infância no Jockey Club do Rio, esperando o acordar de meu pai ao fim da tarde. Era sempre depois do almoço. Voltávamos ao caminhão e meu pai esticava o banco para deitado em siesta ficar. Ele me convidava, e eu no meu auge enérgico recusava para entre os jockeis, cavalos e caminhões alguma aventura encontrar. Nunca ia longe, máximo 100 metros. Receava meu pai acordar e não me ver. Não que ele se chateava, mas eu temia ele me esquecer. Se isso acontecesse seria uma boa oportunidade para subir num cavalo e trotar no meio da estrada a procura dele no trânsito da Gávea, junto a Lagoa. O cavalo tinha de ser um manga larga, preto e alto, no qual eu pudesse subir em sua crista e gritar com meus pequenos pulmões, Pai! Quando ele finalmente me visse, próximo a arrancar no semáforo verde, eu e meu cavalo, pode se chamar Bento, alargávamos nossas passadas, saltaríamos os carros e, quando alcançássemos o caminho, daríamos um salto para cima do compartimento de carga, e como eu e o Bento, havíamos ambos almoçado bem e sem fazer uma siesta, cairíamos do tecto para dentro do caminhão, agora exaustos, o Bento bem mais do que eu, e feliz por termos alcançado o meu paizinho, antes dele atravessar o rio pela ponte Rio Niterói. Já sentado ao lado do meu pai, eu reclinaria a cabeça em seu ombro e faria finalmente a minha siesta, tranquilo de que ele não me esqueceria.

15
Abr20

Crónicas em quarentena III

por Pedro Gomes

Lá fora o Sol brilha radiante e continuamos eclipsados na sombra caseira. Fico com inveja do vizinho que toma o pequeno almoço ao Sol com a esposa e os animais - dois gatos e um cão. Por aqui, só na janela da sala o Sol bate por essas horas (11:51). Li sob o vírus, o qual só aumenta e aumenta de casos e mortes, e hoje, no 27 de Março, os EUA, mais uma vez em sua história, são os recordistas de infectados, 85 mil e 1,200 mortos, passando a liderança italiana. Há menos de uma semana, Trump negava a necessidade de fecho das empresas e algumas instituições, como um bom capitalista sabe, o dinheiro não pode parar. Mas, pelo que vou sabendo dos jornais e amigosamericanos, o Senado virou as costas para sua natural baboseira desinformativa, e começa a observar a pandemia seriamente.
Já a Europa, continua a bater cabeça uns contra os outros. A desgraça é sempre maior para os mais pobres e, com um limite de apoio orçamental por parte do BCE e dos países (ricos e do norte) para os países mais prejudicados ( pobres e do Sul), não se vê no horizonte uma resolução breve ( e realmente solidária) para este lado do globo.
Dos países pobres europeus quem mais sofre são os pobres destes países, principalmente os pobres imigrantes, muitos deles sem trabalho e sem documento para qualquer tipo de apoio, há não ser o de cariz estritamente humano, o qual é menos burocrático. Como mandar quem vive na rua para dentro de casa? E as pessoas que têm trabalho sem contrato e dependem das praças lotadas para sobreviver? E os que ainda não acreditam que está ai fora um lobo na aldeia?
Desvio me das notícias no ecrã do ipad. Releio o que até hoje escrevi enquanto espero o café. Nenhuma única linha de poesia, só folhas cheias de vômito socialmente humano. Reclamar ao papel ajuda a aclarar as ideias na mente, para assim, podermos ir a janela e, no vidro espelhado, ver de dentro o que está lá fora cá dentro.
Muito feliz ficava em comer uma melancia ao Sol. Imagino e sinto me mentalmente rejuvenescido saboreando o sabor abstracto.

10
Abr20

Santa sexta-feira - Conto

por Pedro Gomes


A fumaça subia aos céus como em chamamento. Buk bebia sozinho sua cerveja enquanto esperava o primeiro bife ficar feito. Como preferia o bife em sangue, com a gordura amarela cobrindo as redondezas, não demorou muito a posar a cerveja e servir-se à vontade.
Batatas fritas, arroz branco, salada de tomate com pimento assado e o belo bife mal passado no prato. Trocou a cerveja por uma cerveja preta. A brisa vinha fresca, equilibrando o calor da churrasqueira. Dani surgira de súbito, certamente atraído pelo cheiro divino da gordura escorrida no carvão em brasa.

- Buk, isso é um bife de carne vermelha?
- Sim. Segundo a aparência e o que disse o vendedor.
- Mas meu, hoje é sexta-feira santa, supostamente não se deve comer carne.
- Assim como supostamente Jesus foi o Salvador.
- Estás a pecar!
- Assim como você, que com tanta conversa, faz meu bife arrefecer!

Dani virou-se e encaminhou-se para casa. Buk suspirou de alívio, deu um gole na cerveja preta e levou a boca um naco de carne ensanguentada com gordura dourada.

- Até parece que ia deixar a promoção da picanha passar só por causa de um funeral de há 2 mil anos.

Arrotou e suspirou agradecido.

09
Abr20

Crónicas em quarentena II

por Pedro Gomes

Logo pela manhã contabilizei mais dois poemas à memória. Um meu outro de Álvaro de Campos. Da janela da sala bebi os raios de Sol com a pele. Às onze da manhã não havia um único ser desfilando pelas ruas, nem mesmo um cão ou gato caçando aventura. Rua acima subiam autocarros vazios com motoristas mascarados de médico.
Fui à janela da cozinha procurar pelo gato do vizinho. Mas desta dou com Landlord do gato bebendo café a mesa. Um cara cheio de tatuagens no braço de cabelo semi grisalho. Pela sua magreza era nas tatuagens onde ele portava a masculinidade visual. Fecho me em minha cabeça, como em um corpo fechado em casa sob meus pensamentos fechados. Basta não olharmos mais o além para se ficar refém das paredes da mente.
Cumprimento minha cara amassada ao espelho enquanto espero pela água para o chá de gengibre. O que fazer para o almoço? A cada dia que passa os elementos se esgotam como as ideias. De todas as receitas que ontem vi no livro de culinária vegetariano, apenas a bolonhesa com lentilhas podia fazer com tudo o que havia de ingredientes precisos. Queimo com o chá quente a língua. Finalmente uma emoção de raiva para animar os sentidos! Adquiro a inapalidade dos sabores. Puxo as minhas rédeas até ao sofá, deito me com o Philip Roth nas mãos, cobrindo minha tez de Sol.

16/03/2020

 

07
Abr20

Crónicas em quarentena

por Pedro Gomes

Era o sétimo dia de quarentena de quatorze dias. Iniciara ter tédio. Antes do acontecimento acontecido, na minha ideia eu iria passar os dias activos entre , leituras, escritas e sossego. O sossego venceu as duas outras possibilidades. Não liguei tanto, continuei vivendo misericordiosamente como um abade sem convento.
Tinha sim, amizade com alguns livros, embora no plano idealizado a leitura seria de bem mais páginas como de bem mais escritos. Ia se lendo. Planeava duas horas e lia por meia. Já era alguma coisa para quem nunca lia e sonhava com ler. Gostava muito de música. Ouvir não exige muito do ser da gente. Basta estar ali com os ouvidos abertos, seja de pé, sentado, ou ampliando caminho pelos pequenos espaços da casa. As janelas eram o miradouro turístico. Ia se de uma à outra a buscar novas perspectivas. Fosse por onde o sol andasse, era uma nova forma de ver a luz batendo as telhas.
Li poemas, decorava uns poucos e pensava em escrever. Sai os relatos da reclusão, como quem tem um diário em um cativeiro. Ouvia Legião Urbana dando às memórias juvenis o sentimento natural inspirado das letras. Quando comecei "gostar" do sentimento, quando iniciara a nutrir sensibilidade por familiares, amigos e meninas, a voz de Renato Russo era o tom do profeta. Entendendo ou não, eu embarcava no oceano de suas emoções melódicas e deixava me levar nesse outro universo sensível de ser vivo.
De uma das janelas, via no pátio de baixo o gato grande do vizinho. Um felino magnífico. Pêlos exuberantes em volta dum pescoço semi longo, para um gato até bem longo, em pêlos de barriga branca e flancos castanho negro acinzentado. Fiquei olhando ele se lambendo. Segundos depois olhou me com desprezo. O meu ar de surpresa para ele era banal. Continuei observando, admirando um ser vivo diferente a esse meu actual estado de viver. Lambendo se descontraidamente, sem ligar a qualquer julgamento de animal ou gente.
O sol caiu em sombra. Cansei de ver. Virei de costas à  janela e preparei um chá de vinho, e quando retornei o gato dormia continuando sem ligar a mim. Sem nem saber dar qualquer importância ao me existir. Fechei a janela e peguei num livro de receitas culinárias para o jantar. Já havia feito todas as receitas que sabia de atum.

22/03/2020

Pedro Gomes

08
Out19

Olhando da janela eu esperava

por Pedro Gomes

Olhando da janela eu esperava que chovesse só para ouvir o som da chuva. Mas não chovia, nem mesmo o ar se cobria húmido, como faz naturalmente próximo ao mar. Buk dormia com sua pança para cima umbigando o teto. Eu queria a chuva para não ouvir mais o seu rugido sonorífico. Bebia o resto da garrafa de vinho que o nocauteara. Pensávamos ir jantar à um chinês clandestino no qual o molho disfarce o sabor de qualquer carne que nos estejam pondo à mesa. Eu nunca pedia vaca e tinha muito receio do frango, caia me melhor os pratos vegetarianos com sabor a carne pela gordura da frigideira.
Depois do segundo copo eu pensava em sair sozinho. Sentar numa cervejaria artesanal e maltratar a carteira. Rabiscar pensamentos soltos no caderno na esperança de que ninguém tentasse falar comigo. Já que em minha casa, os roncos do Buk ressonavam em meus neurónios. Decidi ligar para Henry . Ele nunca tinha dinheiro e sempre tinha pensamentos interessantes, quando não me largava por ter encontrado alguma mulher. Sentia um certo alivio pela minha carteira e pena pela mulher.
Buk fez um acordar súbito quando eu tinha o telefone na mão. Olhou ao redor, viu a garrafa mais distante e mais vazia, e lançou:
- Passa me a garrafa moleque, antes que eu volte a adormecer.
- Bebe - passando lhe um copo semi cheio - você não tem fome? Estava para ligar ao Henry e ir jantar.
- Aquele cara fala demais, perco logo o apetite. - bebeu todo vinho de uma vez e voltou a deitar se.
Liguei para Henry mas ele não atendia. De seguida chegou uma mensagem: " Ainda preso as amarras da entidade salarial cosmodemoniaca. Espero que o Mundo acabe para que eu possa estar livre. "
Voltei para a janela e o mundo estava tal e qual sempre foi. Bebi o que sobrava do vinho e coloquei massa a aquecer. Assim que o molho ficou pronto dançando pelo ar, ouvi vindo do banheiro o som de Buk a vomitar. Mal deu descarga e lançou num tom de alegria:
- Já tenho estômago para comida.
Coloquei mais massa na panela e água no molho.
Buk falava animadamente, como se durante o sono houvesse formulado tudo aquilo.
- Eu poderia ter acreditado no amor por ela. Nunca havia visto bunda como aquela. Eu sentia o mesmo que um cristão sente quando vê a cruz. Medo e devoção.
Fazia algum silêncio verbal enquanto ao mesmo tempo arruinava tudo com um feroz mastigar. Já havia uma outra garrafa aberta de vinho na mesa. Pressenti que Buk mergulharia logo no sono à seguir ao jantar. Antes que ele terminasse levantei me e sai. Pensei que ouviria uma voz qualquer de impedimento, mas apenas ouvi saliva entre dentes.
Desci a Almirante Reis meio sem rumo. Tudo estava perdido e eu estava perdido em mim mesmo. Carregava um estranho peso medonho encoberto. Agora que vivia no bairro de Lisboa que mais desejava nada acontecia. Eu continuava na eterna espiral bloqueada. Enquanto certamente, Buk terminaria a garrafa, sentaria em frente ao computador e quando eu retornasse de manhã em casa, ele haveria escrito um livro. Henry, mesmo que chateado vestindo a pele de trabalhador moderno, daria um jeito de vomitar palavras no papel dotados de intelecto surrealisticamente erótico. E para mim nada chegava. Se bebia, não tinha vontade de escrever. Se trabalhava, não tinha força para escrever. Se escrevesse não tinha nada para escrever.
Sentei na tasca mais movimentada, ou seja, a mais barata. Bombeiros, velhos filósofos da vida, prostitutas por crack e gente sem grana. Todos ali na comunhão do desespero existencial. Circundava sempre frases ridiculamente criativas naquele ambiente. Parecíamos todos personagens conscientes de serem personagem, dentro da mesma história, da mesma sociedade. Bebi duas taças de vinho e voltei a subir a Almirante. A minha cabeça fervilhava de ideias. Escalei os andares e parei ao ouvir a voz de Buk:
- Não me venha com essa cara de cu se não me quer dar a bunda. - logo em seguida estridentes femininos irreconhecíveis.
Entrei com muita delicadeza como um gato saltando da mesa. Não reconheci a mulher com quem Buk encenava. Fui para o quarto e fiquei olhando pela janela esperando que chovesse para ouvir o som da chuva.

 

 

04
Abr19

O chinelo da família

por Pedro Gomes


Nascido de número 48, azul, de uma fábrica em Manaus e já com 7 anos de existência, o Chinelo da família Cristovão tinha tudo para ser um chinelo morto, um objecto em desuso - há não ser que reciclado. Quando no natal de 2011, saira da caixa e calçara os pés do patriarca Dr. Francisco Cristovão, advogado e político de 66 anos, vigorava em brio no seu azul ainda não desbotado. Recebeu um sorriso, assim como os pés, e passearam todo aquele dia entre a sala e a cozinha. Já na semana seguinte, desfilava nas areias de Búzios no primeiro dia de 2012.
Curtira muitos dias de praia, sol, piscina e gritaria. De quando em vez, era arremessado em direção ao Romulo, o cão rottweiler, e parecendo vigança, Romulo o mordia, mesmo estando nos pés do Dr., com dentes finos e muita saliva. Mas em algumas ocasiões, Romulo o carregava até aos pés do Dr., e ali ficava sentado com ar de basbacado, quiçá a espera duma recompensa pelo serviço.
Sofrera com leveza os anos que vieram, passava dias na porta do escritório, noutros era transportado para Brasília numa mala desportiva e, uma vez a semana, ia de encontro deslizar entre os dedos e a areia. Nesta época, o Dr. transpirava mais do que sempre, passava horas ao telefone, nervoso e agitado, falava muito da Presidenta.
Viajara ruas de diversas cidades, numas muito frias outras muito quente, mas caminhava sempre com leveza e poeira. Conhecera diversos tipos de piso, adorava carpete e relva, e detestava asfalto e terra. No furor da Copa do Mundo, pisara o estádio do Maracanã e quase se perdera do Dr., ao ser pisado ao sair do estádio, demasiados pés em euforia descordenada.
Em 2015 a traição, o Chinelo passara semanas no armário, escuro e seco. Só teve contacto com as mãos da empregada e os cabelos da vassoura. Quase foi pro saco, muitos de seus companheiros de armário, foram recolhidos e lançados a infinita escuridão da não existência, mas fora Francisco, o filho mais novo do Dr., que o resgatara antes de sua mãe o ceifar.
A partir deste novo serviço à família Cristovão, vivera intensamente. Bicicleta, carro, moto, skate e até, prancha de surf. A praia passou a ser um destino diário, mudava era como lá chegava. Transcendia de cor ao Sol posto enquanto lhe respingava cerveja e água de coco. Dormira muitas vezes enrolado em outros pares.
Participara de diversos protestos, corria saltitante no asfalto quente, perdera muito peso nesta época e ganhara uma macha de sangue. De repente, não mais que de repente, os hábitos mudaram, e passara dias em casa, entre o quarto e a cozinha. Só saia de carro, e já nem tinha de pisar os pedais, ia atrás, ritmado pelos dedos. Casa, universidade e academia. Já não pisava noutros pares.
Passara muitos dias em desuso, quando surgia, era quase sempre praia ou piscina. Francisco passara a se locomover mais com os sapatos, mas não o aprisionara ao armário. Ficava a porta ao lado de um tennis gordo. Romulo o olhava da janela.
Em 2017, a família ganhara mais um membro, a pequena Júlia, filha de Maria, irmã de Francisco. Para além de se apossar do Chinelo, ficara com o quarto. A principal mudança, além de uns pés mais delicados e pintados, a decoração transformara se em rosa e imagens de bonecos animados. Começara a ser utilizado mais vezes como "espanta cão" e assassino de mosquito. Já não saía de casa, nem para uma prainha ao fim do dia. O canto de sua existência era o choro de Júlia.
Sem pré aviso, tornara se de Júlia. Fora lavado na banheira com sabão, passando agora os dias entre risos e nos pequenos braços da bebê, a qual dia após dia, lançava o mais forte e longínquo. Romulo decidira juntar se ao jogo, babando menos e o carragando mais vezes, vezes sem conta.
Quando, num domingo a noite, com a família reunida na sala. Romulo pegara o par esquerdo, sorrateiramente fizera um buraco no jardim e o enterrara. Como Júlia apenas utilizava um par por vez, nem se dera conta. Romulo, desenterrava e enterrava o par esquerdo, de duas em duas semanas. Quando num destes vai e vem fora apanhado pela empregada com o par esquerdo na boca, o mordera tão forte que sua leveza não resistira aos dentes caninos. Lá foi ele pro saco!
E se não fosse a teimosia e encanto de Júlia, a esta hora já tinha assinado o contrato da não existência, ou seria reciclado nalguma outra matéria, quiçá num novo par de chinelos.

 

 

22
Dez18

Invernal

por Pedro Gomes

Primeiro dia de Inverno após a mais longa noite do ano, e na rua, as pessoas passeiam sob o Sol como se fosse Primavera. Na pele, memórias de belos dias em jardins, banhos de Sol, a leveza e alegria do calor. Uma viagem de nós para além de nós mesmos. Basta fechar os olhos e sentir a energia do novo solstício que, embora pareça contrário ao que deve ser, lança com ele uma nova atmosfera aos nossos dias.
Hoje há uma atmosfera agradável, rejuvenescedora, breve. E, brevemente nos próximos dias, virá o verdadeiro Inverno soprando sua brisa e encasacando nossas horas frias. Surgirão sentimentos de distância, sono e, por vezes, uma profundidade de alma, capaz de agitar os nossos pensamentos imóveis, guardados no fundo do silêncio.
Árvores nuas, folhas caídas, o arco solar quase tocando o chão, e longas e longas noites de céu estrelado. Seremos um misto de esperança e desespero. O coração que não levar consigo o doce entusiasmo da vida, poderá ficar perdido em sua própria névoa.
O mais importante é abraçar esta estação, vivendo-a, amando-a e descobrindo como ela, nos influência, dia após dia, em suas lentas manhãs, uma nova face da vida – natural, necessária e humana – invernal.


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